Artigo
Aspectos Éticos da Inteligência Artificial na Medicina

Por:
Prof. Dr. Cláudio Chaves, acadêmico da AAL e padrinho da ALMA
Prof. Dr. Cláudio Chaves, acadêmico da AAL e padrinho da ALMA
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Prof. Dr. Cláudio Chaves
A Inteligência Artificial (IA) é um campo do conhecimento que tem revolucionado diversas áreas do saber e da prática humana. Fundamentada na ideia de que máquinas podem simular habilidades cognitivas como raciocínio, compreensão e resolução de problemas, a IA é fruto direto da intervenção humana e do acúmulo histórico de saberes matemáticos, lógicos e computacionais. O objetivo é desenvolver sistemas que aprendem com experiências, adaptam-se a novos dados e executam tarefas complexas com eficiência crescente.
Essa revolução foi debatida em diferentes vertentes em palestras realizadas no Conselho de Notáveis da Confederação Nacional do Comércio, destacando a relevância da IA na Educação, com o Professor Arnaldo Niskier; no Jornalismo, com o saudoso homem de imprensa Maurício Dinepi; e na Medicina, agora com a esta exposição — demonstrando que seus impactos vão muito além da tecnologia, alcançando a formação humana, a ética da informação e o cuidado com a vida.
As raízes da IA estão diretamente ligadas ao desenvolvimento dos algoritmos, cuja origem remonta ao matemático árabe Muhammad Al-Khwarizmi, que também viveu na Pérsia e em Bagdá, no século IX. Ele desenvolveu métodos para resolver problemas aritméticos e algébricos com base em regras bem definidas, lançando as bases do que hoje chamamos de algoritmos. A representação numérica utilizando apenas dez símbolos (os algarismos de 0 a 9) foi fundamental para o avanço da ciência computacional.
Séculos depois, o matemático britânico Alan Turing, professor da Universidade de Cambridge, consolidaria o conceito de algoritmo como um conjunto de procedimentos lógicos para executar tarefas. Considerado o pai da computação moderna, idealizou uma máquina teórica capaz de realizar qualquer cálculo computacional — a chamada Máquina de Turing —, pavimentando o caminho para a criação dos primeiros computadores.
Nos anos seguintes, cientistas como John McCarthy, da Universidade de Princeton, deram prosseguimento à evolução da IA. McCarthy foi o responsável por cunhar o termo "Inteligência Artificial" em 1956 e também criou a linguagem de programação LIST, baseada em listas como estruturas de dados. A ferramenta denominada de LIST tornou-se essencial para o desenvolvimento de sistemas de IA nas décadas seguintes, ao permitir uma modelagem mais próxima do pensamento humano. Outro avanço marcante foi a introdução do conceito de Machine Learning por Arthur Samuel, da Universidade de Illinois e engenheiro formado pelo MIT. Samuel foi pioneiro ao demonstrar que computadores poderiam "aprender" com experiências anteriores — por exemplo, melhorando seu desempenho em jogos como damas — e que esses sistemas poderiam evoluir sem serem explicitamente programados para cada nova tarefa.
No século XXI, a IA deu um salto significativo com a integração ao conceito de Big Data, termo popularizado pelo pesquisador Doug Laney, também da Universidade de Illinois. Laney definiu os três pilares que caracterizam os grandes V’s de dados utilizados por sistemas inteligentes: volume (quantidade de dados), velocidade (rapidez com que são gerados e processados) e variedade (diversidade dos formatos e fontes).
A combinação entre Big Data e IA permitiu que algoritmos de aprendizado de máquina atingissem um novo patamar de eficiência e precisão, com aplicações que vão desde a personalização de conteúdos digitais até diagnósticos médicos assistidos por computador. Assim, o desenvolvimento da IA é resultado de uma trajetória multidisciplinar e contínua, unindo ciência, tecnologia e humanidades em prol de uma sociedade mais informada, conectada e, potencialmente, mais justa.
A tecnologia na medicina passa por avanços, que, aliados à inteligência artificial, têm sido promissores na detecção e diagnóstico de doenças. A medicina utiliza em suas especialidades a IA para oferecer diagnósticos e tratamentos mais precisos pela capacidade de processar grande quantidade de dados e interpretar imagens médicas. Esses avanços tecnológicos melhoram as chances de tratamento bem-sucedido e reduzem o tempo de diagnóstico, possibilitando um atendimento mais eficaz e ágil, com impacto na qualidade de vida.
No entanto, essa integração entre tecnologia e medicina também traz preocupações, e devem ser considerados pontos como privacidade dos dados, equidade de acesso a avanços tecnológicos e o papel do médico na tomada de decisões.
A medicina e a tecnologia têm uma longa história de colaboração, e, nos últimos anos, ocorreu uma grande evolução nessa relação. Essa revolução tem como protagonista a inteligência artificial (IA), tecnologia que está transformando a maneira de diagnosticar, tratar e gerenciar uma variedade de agravos à saúde. Isso se justifica, em grande parte, pela capacidade da IA em processar vastas quantidades de dados clínicos e médicos, além de interpretar dados médicos com precisão notável.
Soma-se a isso o fato de que essa tecnologia está acarretando mudanças significativas na estrutura dos serviços de saúde e dos sistemas nacionais de saúde, com grande potencial para melhorar a qualidade e reduzir custos na assistência.
À medida que a tecnologia avança, ela é implementada em diversos campos da medicina e a IA, traz inúmeros benefícios e agilidade ao diagnóstico e oferece uma forma mais personalizada para analisar as informações e transformá-las em uma ferramenta útil na tomada das decisões.
Como toda tecnologia na saúde, a incorporação dessas novas ferramentas é fundamental para o avanço da medicina, porém a utilização da IA não está isenta de desafios, sobremaneira os que envolvem questões éticas. Privacidade de dados de saúde, responsabilidade em caso de erros algorítmicos e equidade no acesso aos benefícios da IA são preocupações que precisam ser abordadas.
A IA também conhecida como “inteligência de máquina”, é um ramo da ciência da computação que se baseia em algoritmos e processamento de dados em busca de teorias, métodos, tecnologias e sistemas de aplicação para simular, entender e expandir a inteligência humana em máquinas com instruções pré-programadas, ou seja, machine learning (ML).
O ML busca uma interseção de técnicas matemáticas e estatísticas com algoritmos computacionais que utilizam o conceito de IA. Essa tecnologia é aplicada em situações nas quais se buscam padrões em um conjunto de variáveis com o intuito de prever um resultado confiável e de interesse.
Nesse contexto, computadores são programados para aprender como o cérebro humano funciona. Esse aprendizado é desenvolvido com base em redes neurais alimentadas por uma grande quantidade de dados (big data), inseridos no sistema para treinar a máquina na habilidade de encontrar as soluções relacionadas a esses dados, buscando uma variedade de novas combinações.
O termo big data refere-se a um conjunto de dados de grande tamanho que nenhuma das ferramentas tradicionais de gerenciamento de dados é capaz de processar com eficiência, mas também pode se referir a um tipo de tecnologia, como instalações de armazenamento, ferramentas e processos.
A aplicação de ML e IA é voltada principalmente para o manuseio de bases de dados consolidados com informações heterogêneas, para as quais há limitação do uso das técnicas de estatística convencionais. Assim, a contribuição dessas tecnologias pode abranger desde o diagnóstico precoce de determinada doença até a infusão de medicamentos.
Dessa forma, a IA progride rapidamente em vários campos interdisciplinares e multiprofissionais dos cuidados da saúde, relacionados a prevenção, diagnóstico e gestão de doenças, melhorando significativamente na medicina.
O primeiro sistema de diagnóstico autônomo aprovado pela Food and Drug Administration foi utilizado para diagnosticar e classificar as comorbidades de altos índices de morbidades como por exemplo a diabetes, considerada um grave problema de saúde pública, a qual quando não controlada compromete severamente o coração, pâncreas, fígado, rins e olhos dentre muitas outras complicações.
A integração da IA na medicina tem sido efetiva e promissora para o diagnóstico precoce e o tratamento eficaz de doenças, oferecendo benefícios inegáveis para pacientes e profissionais de saúde. Entretanto, à medida que essa tecnologia se torna mais difundida, surgem preocupações que não podem ser ignoradas, o que tem levado as organizações e hospitais a recrutar especialistas em bioética da IA a fim de ajustarem às diretrizes éticas.
Esses desafios bioéticos devem considerar: ética de treinamento de máquina; ética de precisão de máquina; ética relacionada ao paciente; ética relacionada ao médico e a ética compartilhada.
A grande preocupação é garantir que as informações sejam protegidas com segurança por hospitais, clínicas, organizações de pesquisa, empresas farmacêuticas, seguradoras e empresas de tecnologia que armazenam esses dados, tornando-se essencial medidas rigorosas de segurança cibernética e conformidade com regulamentos de proteção de dados para identificar com clareza, diante de um eventual erro médico a responsabilidade moral e legal do emprego da tecnologia da IA.
É importante enfatizar que essa tecnologia deve estar disponível para todas as pessoas sem qualquer discriminação de indivíduos e grupos. Nesse contexto, a IA nunca poderá ser uma “caixa preta” e que tanto os médicos quanto os demais profissionais de saúde e os pacientes precisam saber como tais ferramentas funcionam para que todos entendam como as decisões devam são tomadas.
Além do uso da tecnologia avançada no mundo atual na medicina tanto nos procedimentos de diagnose quanto nos de terapia incluindo procedimentos invasivos, a IA também tem um potencial muito grande para ser aplicada concomitantemente nas técnicas operatórias (cirurgias robóticas) e na pesquisa científica relacionada às mudanças no código genético e na reprodução clonal de órgãos e de seres, inclusive humanos.
No campo da pesquisa no que se refere às mudanças genéticas e na reprodução de órgãos e seres, talvez resida a grande preocupação ética e moral que podem levar a sociedade a uma auto destruição com um comércio leviano de órgãos vitais colocados no mercado como meros objetos e também a criação de castas dotadas de um altíssimo nível de inteligência a se sobrepor e dominar as populações que não dispõem de recursos financeiros para ter acesso a essa tecnologia e com isso correr-se o sério risco de se ver materializar a descrição da obra “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley que há cerca de 100 anos colocou como ficção científica: “perpetuar o controle social e o domínio das classes, através da manipulação e condicionamento, onde a sociedade é dividida em castas, moldando os indivíduos para que se encaixem em seus papéis pré-definidos, e não para despertar a crítica ou a reflexão”.
O domínio da pesquisa sobre o código genético, somado as investigações científicas como por exemplo a linhagem HeLa – células de Henrietta Lacks mantidas em cultura há mais de 70 anos no Instituto Jhons Hopkins (Baltimore, MD, USA), que podem se reproduzir indefinidamente e sem o encurtamento dos telômeros o que pode levar ao prolongamento mais amplo da vida com qualidade. Essas células também passaram a ser alcunhadas de células da imortalidade.
Ninguém de bom senso pode fazer apologia ao conservadorismo e deixar de reconhecer que o progresso é sempre necessário para o bem-estar de povos e pessoas, porém o importante é que os seus atores, os seres humanos, sejam gente para cuidar de gente e que toda e qualquer ação social tenha como objetivo o bem comum, com pessoas melhores teremos sempre um mundo melhor.
Isso ratifica a parábola do cientista e da criança: “Como Consertar o Mundo?” de domínio público que conclui: “para consertar o mundo, conserte primeiro o homem!”
A integração da inteligência artificial na medicina representa um marco transformador na forma como doenças são diagnosticadas, tratadas e monitoradas. Seu potencial para aumentar a precisão clínica, agilizar processos e personalizar o atendimento ao paciente é inegável. No entanto, a incorporação dessa tecnologia exige responsabilidade e reflexão ética. Questões como privacidade de dados, equidade no acesso, responsabilidade por erros e transparência nos processos decisórios devem ser continuamente debatidas e regulamentadas. O verdadeiro avanço não está apenas na sofisticação das máquinas, mas na sabedoria com que os seres humanos utilizam essas ferramentas em prol da saúde, da justiça e da dignidade de todos.
Enquanto que em muitas outras áreas do conhecimento a IA possa reduzir consideravelmente o trabalho humano ou até mesmo em algumas substituí-la pela robótica, na Medicina esse fantástico desenvolvimento vem a contribuir e muito na aquisição, processamento, armazenamento e utilização de informações, semelhantes ao cognitivo humano, e também em monitorar e autorregular esses processos tornando-se idênticos à metacognição, mas jamais substituirá o cérebro humano nas decisões mais complexas que exijam procedimentos múltiplos, equipes multidisciplinares e especialmente na relação médico-paciente que pela sua complexidade será sempre indeclinável e insubstituível, visto que não havendo todo o cuidado e a atenção necessária pode conduzir ao comprometimento de padrões e valores que podem ser levados à ilicitude ética.
O avanço tecnológico, por mais revolucionário que seja, exige um compromisso proporcional com a responsabilidade ética. É necessário promover um debate contínuo sobre os limites e as implicações do uso da IA na saúde, incluindo questões de privacidade, autonomia, equidade e justiça social. A sabedoria humana, acumulada por gerações de prática médica, deve sempre orientar o uso dessas ferramentas, assegurando que elas ampliem a dignidade humana, e não a diminuam. A verdadeira inovação ocorre quando o progresso técnico é guiado por valores sólidos, e a IA se torna, então, uma aliada do cuidado — não um substituto. Afinal, a tecnologia deve estar a serviço da humanidade, e nunca o contrário.
A Inteligência Artificial, embora seja uma ferramenta poderosa e promissora no campo da medicina, jamais poderá substituir a sensibilidade, a empatia e o julgamento clínico de um médico. A essência do cuidado está na relação humano-humano, na escuta atenta, no olhar compreensivo e no vínculo de confiança entre médico e paciente. A presença da IA deve ser vista como um apoio qualificado para diagnósticos, prognósticos e gestão de dados, mas não como um agente substitutivo da prática médica. Nesse contexto, o princípio ético da não maleficência — primun non nocere — precisa ser constantemente reafirmado: as tecnologias devem servir à vida e ao bem-estar, nunca colocá-los em risco. O cuidado exige não apenas competência técnica, mas também discernimento moral e compaixão, como expressa a comovente Prece do Médico, de Attilio Hartmann: "Alguém junto de alguém, gente cuidando de gente. Como Tu, Senhor!"
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