Artigo
As Mulheres Amazônidas e a Estética da Floresta

Por:
Iraildes Caldas Torres
Iraildes Caldas Torres
Foto: divulgação

Iraildes Caldas Torres
A vivência das mulheres da Amazônia compõe um extraordinário repertório de cantos que fazem pulsar uma poética da floresta, com seus trabalhos e práticas sociais, que nos permitem pensar numa estética da floresta. O trabalho é central na vida destas mulheres, que são reconhecidas e valorizadas em suas comunidades, por meio do trabalho que fazem. É por meio dele que homens e mulheres se realizam como seres históricos e sociais no sentido ontológico. Para além dos aspectos econômicos e da atividade lucrativa, o trabalho é fonte de realização do ser social homem e mulher. A centralidade do trabalho é um conceito de Marx, elaborado em 1844, nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Esta discussão emerge em maio à Revolução Industrial, ao passo que a ontologia do trabalho é parte intrínseca da pessoa do trabalhador e da trabalhadora, do seu ser.
As práticas sociais estão voltadas para a construção dos sujeitos e atores sociais em seus contextos de interação com culturas ancestrais, entrelaçadas a ofícios naturais repassados oralmente por meio da tradição e das atividades místico-sobrenaturais que transcendem o aspecto físico. Estas práticas sociais são visíveis na atuação das benzedeiras, parteiras, erveiras, oleiras, quebradeiras de côco de babaçu, puxadoras de ossos, meliponicultoras, artesãs, até mandioqueiras e farinhadeiras. Elas promovem mudanças profundas e transformadoras na vida das pessoas com quem essas mulheres têm contato ou a quem elas assistem. São sociais porque atuam no contexto de suas comunidades, da coletividade, na sociedade, contribuindo para o desenvolvimento da humanidade e para a emancipação feminina.
As práticas sociais das mulheres da floresta é um conceito que venho construindo nos últimos quinzes anos na Amazônia. Está associado aos saberes das mulheres anciãs, à sabedoria ancestral. Clarissa Pinkola Estés (2007), é audaz em dizer que esses ensinamentos se estendem muito adiante, dando a verdadeira vida, em vez de permitir o rompimento da linha matrilinear viva da mulher sábia e indomável, da alma sábia e indomável.
Esses saberes estão assentados numa matrística, que, como aludido por Maturana (1998), corresponde a uma cultura na qual as mulheres floresceram, em tempos primordiais, como matriarcas, revestidas de poderes, especialmente os espirituais. As práticas sociais das mulheres da floresta são compreendidas dentro do ecofeminismo que, na Amazônia, evoca o princípio feminino da Mãe-Natureza presentificado na tríade terra/floresta/água. Os andinos chamam-na Pachamama que é a Mãe-Terra. Na Amazônia, referenciamos também a Pachamam, mas sem esquecermos das mães da mata, dos igarapés, das cachoeiras, das corredeiras, enfim, a mãe da floresta e das águas.
O princípio feminino não é o sagrado feminino. O princípio feminino é vivente, pulsa nas veias da terra, da mata e das águas. Ele norteia a alma da natureza e as almas das pessoas sensíveis à natureza, entrelaçadas a ela: as mulheres que, investidas da matrística, bebem na sabedoria ancestral para ajudar as pessoas. É a sabedoria ancestral que se entrelaça com a natureza. Estas mulheres possuem uma mística da floresta, desenvolvem uma poiesis que lenteia no seu próprio viver, nos seus modos de vida, no cotidiano vivido, no coração da floresta. A natureza intuitiva da poética com seu verniz ecológico do ato de viver a vida, está presente no mundo prosaico da selva.
Iraildes Caldas Torres -
Doutora em Antropologia Social -
Professora Titular da Universidade Federal do Amazonas.
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